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Aquele que conta seus segredos...

Derneval R.R. Cunha

Diz adeus a sua liberdade. (provérbio árabe)

No número anterior do Barata Elétrica, havia uma série de noções do porque a pessoa deve preservar algo da privacidade. Mas não há uma dica de como fazer isso. Pois é algo difícil. Não há como fugir do fato de que existimos. Se isso é verdade, então temos nome, idade, data de nascimento, local, escolaridade, profissão, hobby, condição financeira, experiência anterior com vários tipos de situações, como inveja, ciúme, ganãncia, ou tópicos como socialidade, religião, etc, etc..

Isso parece uma discussão sobre Currículo Vitae, mas o lance é que se a pessoa vive, interage. E essa interação fica marcada na memória. Como todo mundo fala "quem não se recorda do passado está condenado a repeti-lo", o duro é saber o que é recordado por quem. Se eu tenho um amigo, guardo uma visão dele. Melhor falar de amiga, assim não fica a impressão de que estou falando besteira. Essa amiga guarda uma visão de mim, mas provavelmente não vai se recordar tanto de como ela era enquanto estava comigo. E vice-versa. Eu não vou me recordar de como fui besta em companhia dela. A maior tendência é guardar e recordar aquele que que está próximo. Recordar como somos com alguém, isso muitos não dão a menor importãncia.

No tempo da MPB (minha infãncia) dava náuseas ouvir dois ditados: "conhece-te a ti mesmo" e "dize-me com quem andas e te direis quem és". Era um jeito muito fácil de fingir cultura e inteligência (hoje, deve haver outras formas de forjar a mesma coisa). Mas analisando a primeira parte, é muito difícil a pessoa se analisar, mesmo que descubra a importãncia de fazer isso. É que pode custar caro, principalmente quando se utiliza profissionais do ramo, vulgo psiquiatras ou psicólogos. Com efeitos colaterais, que é o sentimento de culpa e um medo absurdo de ficar sem grana (conheci muitos nessa condição) para prosseguir no caminho do auto-conhecimento (com ajuda profissional). Isso, até que a pessoa chega a conclusão que a grande diferença entre o conjunto de médicos, psicológos, essa gente que trabalha num sanatório e os pacientes, é que estes não tem a chave..

Bom, tirando a piada, é necessário outra pessoa para que possamos nos enxergar perante a sociedade. Mesmo o espelho só pode dar uma visão invertida da nossa imagem. E se outra pessoa te analisar ou recordar seus atos, a memória dela pode estar afetada por trocentas coisas. Um homem e uma mulher. Se for uma namorada no início do namoro, qualquer coisa que ela vai se lembrar do cara num determinado momento é que ele é lindo. Se for no final do relacionamento, qualquer coisa que o cara fizer é porque ele é um grosso, feio, mal-educado, etc.. Tem gente que nunca parou para pensar nesses detalhes e pensa que parecer bonito ou feio tem a ver com vestir uma roupa de domingo.

Mas considerando um intervalo de tempo menor. Uma conversa com um desconhecido. Olha só como existem detalhes na relação mais simples do mundo. Uma conversa entre duas pessoas acontece por conta de várias coincidências. Ambos falam a mesma língua. Ambos estão interessados em um diálogo. Ambos estão interessados em falar e ouvir. Mas depois do momento inicial, em que já se conversou o óbvio, a coisa pode progredir até varias camadas de profundidade. Tipo conversa de família que tem adolescente, na hora das refeições.. uma opinião sobre a sopa pode terminar num palavrório sobre o aborto ou um interrogatório sobre a situação escolar. Ou pode ser como um bate-papo num CHAT ou IRC da vida em que a pessoa acaba se dando conta de que realmente está fazendo isso ou aquilo errados, que detesta o emprego, a pessoa com quem está morando, etc, etc..

É, pode-se descobrir como é bom descobrir alguem novo, nossa própria identidade. A igreja sempre fez o maior sucesso com isso, tem um negócio chamado "confissão". Um segredo entre o padre e o "pecador" que o procura. Leon Eliachar, famoso humorista mineiro, tinha um provérbio (não sei se ainda me lembro), onde dizia ter perdido a conta do número de vezes que foi enganado: é uma sensação maravilhosa poder confiar no ser humano... é..  e o pior é que é mais fácil ainda confiar num estranho do que em alguém da própria família, as vezes. Sim, porque a família só conhece uma parte da pessoa. E uma pessoa é produto de um amontoado de influências, experiências, amizades, coisas específicas de idade, etc, que torna difícil que duas pessoas morando juntas realmente saibam tudo que a outra pessoa está pensando. Parto do princípio que quem conseguiu seguir meu ponto de vista até aqui talvez entenda mais tarde onde vou chegar.

Diga-me com quem andas e eu te direi quem és. Temos amigos que não são conhecidos entre si. As vezes. E conhecemos gente que não queremos que ninguém saiba que conhecemos. As pessoas são muito menos racionais do que imaginam. Embora o papel do confessionário tenha sido substituído pelo terapeuta, assistente social, etcs, o mais comum é a pessoa procurar quem esteja disposto a ouvir, não importa quem. Não importa o assunto, não importa o local. Em alguns casos, a conversa não é mais do que um monólogo disfarçado. É uma pessoa que quer falar para uma outra que não se importa de ficar ouvindo. Tudo depende do assunto e da disposição. Tudo depende da ausência de fatores que inibam o bate-papo. Tem muita gente que se desinibe total na frente de um computador na internet porque a princípio, não vê a cara de sono do sujeito do outro lado, não vê o rosto cheio de espinhas, aquela cara de "tô na frente do micro desde ontem de manhããaaaa e ainda não escovei os dentes hoje..." É um barato. A pessoa é aquilo que digita. Pode brincar de romântico e morrer de dar risada, porque como a pessoa do outro lado vai saber? Daí aparece um história dessas:

Casal que se conheceu pela Internet some

[..]Os dois se comunicaram pela Internet durante 30 dias, até final de setembro, em média oito horas por dia. Silva apresentou-se pelo computador como um rico fazendeiro,enviando como "provas" fotos de touros, uma fazenda e um avião,além de muitas flores e declarações de amor.[..]

Ex-modelo, a vendedora enviou antigas fotos suas, de uma época em que estava 20 quilos mais magra. "Antes de se encontrarem, ela explicou que estava mais gordinha. Ele entendeu e não se decepcionou", disse a mãe de Carla.[..]

(Folha de São Paulo, sexta, 17 de outubro de 1997 RUBENS VALENTE  da Agência Folha, em Campo Grande PAULO MOTA da Agência Folha, em Fortaleza ).

O mais difícil pode ser estabelecer a confiança inicial.

A maioria não entende ou classifica isso como "papo de vendedor" e não entende como que podem acabar caindo numa situação bem pior, por coisa a toa. Por exemplo, estava com uma turma, num bar da periferia, altas horas da noite. Aparece uma patrulha. Todo mundo que é adolescente já passou por uma situação semelhante a da favela Naval, mas era apenas uma blitz, sem aquela coisa toda. Todo mundo foi apenas revistado, etc, etc.. Quando tudo parecia já que ia terminar, os outros policiais estavam indo embora, um deles, bem baixinho, parecia até que não fazia parte, foi bater um papo com um amigo meu, mais afastado. E conversava legal, sorria, pedia desculpas, falava que infelizmente era o serviço deles, etc, falou da vida dele, que tinha namorada, que também gostava de farrear, quando parecia que os dois sorrindo juntos, trocando piadas e falando de farras, o policial veio com um lance de que ele fumava "daquele tabaco"  e .. sorrindo (porque os dois estavam rindo) sugeriu que o amigo também fumava..

"Isso é minha vida pessoal, não vou dizer"

O policial fez então um discurso que os literatos até classificariam de inflamado, exaltado, sobre trocentas qualidades que a mãe, a avó, a bisavó do sujeito ofereciam ao público, num bordel da periferia. Do pai, do avô e bisavô comentou algo sobre tradição e contribuições para a cultura gay de Campinas, todo um palavrório meio desperdiçado. Meu amigo cobriu a boca com mão e fechou os olhos.  E não falou mais nada, até a viatura ir embora. Explicação: responder nesse caso seria desacato a autoridade. Ia acabar na delegacia. Pelo menos teve presença de espírito, porque se tivesse, somente para ser educado, admitido algum dia ter fumado "tabaco", poderia ter sido obrigado a dizer quem forneceu. Aquele policial deveria ser um espécie de especialista nesse tipo de "confissão" e a noite poderia ter terminado muito mal, talvez igual aquela de Diadema.

Existe o fator bebida. "In vino veritas" A verdade está no vinho. Com a dose certa de álcool na cabeça, todo mundo conta tudo. E todo mundo pensa que é só álcool que embriaga. Uma pessoa que esteja muito alegre porque o Timão (ou o Palmeiras ou o Vasco) tá na frente, também fica vulnerável.

A grande chave do sucesso é a sinceridade. E como tem gente que consegue falsificar "sinceridade". As vezes  não é tão fácil. Mas aí a outra pessoa pode também apelar para o lado nobre de cada um, como já descrevi acima. Numa banca de revistas 24 horas na Paulista, percebi o seguinte truque: o dono vendia revista estrangeira por menos da metade. Existem várias bancas em São Paulo onde é possível isso. Mas na hora do sujeito puxar a nota de 10 R$ pra pagar 4 R$, o vendedor distraídamente puxava conversa com um ciclano ou beltrano. Na hora de dar o troco fingia "você me deu 5, não foi?" O comprador tava tão feliz da vida de ter conseguido uma pechincha que as vezes até aceitava o prejuízo. Vi isso 2 vezes acontecer e tomei partido do freguês. O vendedor soltou aquele discurso "você acha que vou me sujar por conta de 5 R$?" Mas já vi esse truque ser feito com gente em Minas, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Uma vez até por conta de 0,10. A pessoa fica tão alegre em poder gastar com alguma coisa que esquece que, se puder, tem vendedor que prefere não dar o troco. E de tão alegre que está, a pessoa não se anima a fazer escândalo, para não passar por pobre. Restaurante, no Rio de Janeiro, roubava na conta direto, até que virou "in" conferir a conta. Isso nos anos 80, hoje não sei.

É, pode se dizer que "colecionei"  essas histórias para contar aqui. Qualquer pessoa que viva o suficiente acaba aprendendo como se defender de algumas malandragens. Mas o problema é não perceber que não é de dinheiro que falei no parágrafo anterior. É do medo que a pessoa tem de ser contra algo errado, apenas porque isso pode gerar constrangimento. É de repente estar por dentro que uma pessoa pode fazer você entrar numa situação "irrecusável". E numa dessas se cai numa armadilha. Uma vez li numa revista que um sujeito, falando de outro, comentou uma festa bem doida para o qual tinha sido convidado. O cara era um ídolo da juventude (era, veio a Aids, e como a Legislação proíbe difamar os mortos..). Chegou uma hora em que o lance da festa era o seguinte: todo mundo ali tinha que assumir que no fundo do fundo do fundor era bissexual. "Quem não admitisse era por que tinha alguma frescura e fresco tinha mais é que nunca mais vir numa festa dele". Detalhe: a maioria do pessoal constava no RG como sendo do sexo masculino. Não sei se isso foi invenção de um cara sobre outra figura que acabou virando símbolo de luta contra a Aids, etc, etc.. mas é de se pensar até que ponto uma pessoa é fã de outra. Perigoso.

Vou terminar contando uma história sobre um cara chamado Mordechai Vanunu. Um sujeito comum, israelense. Pegou um estágio numa fábrica da terrinha dele, sem saber o que era direito. Descobriu que a dita cuja produzia equipamentos muito específicos. Bombas nucleares. Coisa completamente ignorada pelo mundo, na época. Totalmente secreto. E .. era um sujeito idealista, embora tivesse altos problemas com a família. Juntou então um problema familiar com um problema de consciência. Por via das dúvidas, decidiu fotografar o local. E continuou trabalhando lá. Até que um dia, pra desanuviar a cabeça, saiu pelo mundo. Sem resolver os probleminhas de cuca. E acabou encontrando uma alma gêmea, um cara que tinha feito a mesma linha de estudo que ele. Nietzche, Kierkegaard, essas coisas. Igreja Anglicana. Difícil acreditar, mas se converteu e passou a frequentar direto. Numa noite qualquer, o bate papo lá da congregação era desarmamento nuclear, o novo convertido abriu a boca pra aliviar seu grande segredo. Na Austrália, o sujeito estava. Em pouco tempo um jornal da Inglaterra, o London Sunday Times mandou um repórter pra entrevistar. Vamos contar para o mundo que Israel tem a bomba! Legal, o cara foi levado para o Reino Unido. Ia ser uma bomba, a notícia, em todos os sentidos. Aliás foi.

Só que o serviço secreto israelense, o MOSSAD ficou sabendo.O pessoal lá ficou meio p(*) da vida. Parece que os EUA já sabiam da fábrica de bombas, mas fingiam não saber. De  qualquer forma, o que era uma espécie de boato, teve algum tipo de confirmação, já que o cara tinha fotos da coisa toda. Legal, né? O jornal adiou um pouco a publicação, sabe-se lá porque. O novo convertido ficou mofando, mofando lá naquela cidade que se chama Londres, provavelmente sentindo que nem o Caetano, procurando disco voador no céu (na falta do que fazer no Hyde Park). Aí pinta aquela gostosa do lado dele. Conversa vai, conversa vem.. o cara resolve descarregar suas confissões e frustrações, ela é boa ouvinte, escuta tudo. E ficam amigos, os dois. Namoram. Ela convida ele para uma sei-lá-oque de mel na Itália. Ele vai. Hoje o Mordechai resolveu seus problemas de habitação, por assim dizer. Vive extremamente seguro. Prisão de segurança máxima. O MOSSAD tinha contratado a menina para fazer ele sair da Inglaterra. Na Itália, foi sequestrado e levado para Israel onde foi julgado por alta traição. 18 anos numa solitária, de vez em quando um ou outro irmão o visita. Existe um movimento no exterior clamando pela sua libertação. Ouvi falar. Mas fica a história: "Quem conta seus segredos, perde a liberdade."

ele sair da Inglaterra. Na Itália, foi sequestrado e levado para Israel onde foi julgado por alta traição. 18 anos numa solitária, de vez em quando um ou outro irmão o visita. Existe um movimento no exterior clamando pela sua libertação. Ouvi falar. Mas fica a história: "Quem conta seus segredos, perde a liberdade."